terça-feira, 24 de junho de 2008

Ana Cañas e duas histórias



    A primeira história começa assim:
    Há 6 ou 7 anos atrás eu trabalhava como monitora de exposição de um grande Centro Cultural de São Paulo. Entre todos os meus colegas de labuta, havia uma garota de nariz arrebitado e altivez no olhar. Eu a observava com especial interesse porque seus gestos faziam desenhos no ar enquanto articulava, e embora muitas vezes argumentasse como uma menina, todos a levavam à sério.
    Nunca ficamos amigas, e eu arriscaria até dizer que não era de seu feitio travar amizades pelo convívio vulgar de um ambiente de trabalho. 
    De um modo geral tratava a todos com doçura e uma certa hostilidade. Aliás havia em sua eficiência uma displicência, como se fosse uma princesa coroada de um reino muy distante. 
    Evidente que tentava disfarçar, mas para pessoas com um olhar aguçado como o meu, estava claro que ela, de alguma forma, suspeitava de seu futuro auspicioso. 
    E foi assim que ela se foi. Sem ninguém saber o porquê. Como se tivesse coisa mais importante pra fazer. Simplesmente não apareceu mais.
    A segunda história não sei bem como começa, se foi no You Tube, na Lastfm ou  na rádio Eldorado. O fato é que comecei a ouvir uma  cantora dessa tal nova safra.
     Sua voz carregada de subjetividade me atingiu em cheio. É de uma grandeza arrebatadora, de uma força de diva de jazz. É de um jeito de menina que parece estar brincando e assusta-se porque os outros a levam à sério.
     Tem a alma colorida. Usa saia rodada e brincos grandes. Tem grandes olhos abertos  de insônia de quem vê a cidade do alto. E acha graça dos que dormem em absoluto silêncio. Tem um moço com quem divide taças de vinho e sonhos de vida com tanta arte que às vezes sangra pelas paredes. 
    E ela canta, a música a inventou. E ela inventou de cantar. Ainda bem. Pois assim tem  preenchido minhas tardes de poesia. E pude saber que minha misteriosa colega de trabalho tinha que se transformar em  Ana Cañas.
 


3 comentários:

Tobey disse...

Vou baixar a-go-ra! (Libarino)

Gustavo D.G. disse...

que boa novidade, um blog de uma pessoa tão interessante e querida!

corpo disse...

O tom do seu olhar me fez ouvir melhor todas as; "Ana", "Ana Cañas", "Cañas", a atendente, a observada, as que cantam, as que ouvem e a que escreve!!!