quarta-feira, 15 de abril de 2009

Two

Sim, é possível um belo recomeço
virar tudo do avesso 
do eixo
do eu
do oco
roer o osso
lamber os beiços beijos becos
ser bom a beça
viver no precipício isso isso isso
quem gosta de abismo
tem que ter asas

Sim, tudo novo de novo em folha zero zerinho. olhar o seu olhar e me ver. reflexo convexo de fluxo. eu sempre sempre sempre aqui. entre a prateleira. cinema europeu e drama. tesão. balcão e chão. chave e geladeira. filho precipício do início. ladeira a baixo. alma lavada. e eu sempre sempre sempre aqui. entre a geladeira. realidade e ficção. paixão. pia e colchão. amor e fila do pão. eu sempre sempre sempre lado a lado. contra a parede, contra a corrente, contra a maré. cavalo alado. infinito infiltrado. você como meu amado. sempre sempre sempre. de novo.
 




quarta-feira, 8 de abril de 2009

Por aqui infinito

Por aqui tudo serras da desordem na terra do caos e cañas.
Por aqui um jeito manso de piscar os olhos. de discordar do mundo. de disfarçar dos outros. de passar batido.(tomara que ninguém perceba que vim de longe para estar aqui.)
Por aqui ficção para viver o que realmente é. Por de trás das câmeras as pernas cruzadas sob a saia arriada.
Por aqui viver uma espécie de off hediondo e profano.
Por aqui um jeito de entortar a boca mordendo o lábio.
Por aqui blackout.
Bang Bang.
Por aqui a menor expressão de cada gesto para dizer o que não é dito.

segunda-feira, 30 de março de 2009

     Dela, herdei o gosto por samba-canção. 
   Sentada na máquina de costura, cantava centenas de vezes o mesmo refrão. Eu encarava assustada a capa do LP que girava na vitrola. Eram grandes e dramáticos olhos. Foi assim, meio com medo, que conheci Maysa.
   Os discos cheiravam a mofo e a maresia, ao mesmo tempo. E eu adorava o barulhinho da agulha rangendo no vinil. Orlando Silva, Nelson Gonçaves, Doris Monteiro, Lucio Alves, Braguinha, eram tantos que mal cabiam nas férias que eu passava com ela, minha avó. 
   Dick Farney era o homem mais lindo do mundo, confessávamos uma para a outra. E eu sabia, quando escolhia o disco de Elis, que ela ficaria com os olhos cheios d'água. Aliás, a única vez em que a vi chorando foi na morte de Elis Regina. Cantora essa que evitei um bocado na infância e que só me permiti resgatá-la há pouco tempo, não também sem chorar, herança genética.
   O que eu gostava mesmo eram das marchinhas de carnaval, Lamartine Babo, Pixinguinha, Cartola, Ary Barroso. Que delícia, ela deixava eu vestir seus vestidos longos e colocar todos os colares de seu armário. Vaidosa que só ela, sua coleção de brincos e afins, broches e maquiagem era imensa, e to-di-nha minha nesses momentos. Eu dançava vestida de Carmem Miranda até doer o pé. E ela me contava histórias e histórias de Carnaval, e todos os bafos envolvendo as cantoras do rádio, as brigas de Linda e Dircinha Batista.
   Ela me levava para os bares de Santos, onde sempre tinha um violão e eu podia cantar "Carinhoso" e "Conversa de Botequim" ( Seu garçom faça o favor de me trazer depressa...) para surpresa de todos. Depois de algumas caipirinhas ela ía para uma boate chamada "Chão de Estrelas" numa referência explícita a Silvio Caldas. Mas lá eu não podia entrar. E eu ficava então a imaginar toda a sorte de coisas que acontecem num lugar com esse nome. 
   Hoje eu sei que ela não pisava nos astros distraída, pois sabia que a ventura dessa vida, é a cabrocha, o luar e o violão.


domingo, 22 de março de 2009

A guinada


Já sabia que seria assim. Havia um furacão rondando.
Mas quando chegou foi como um suave sopro.












sexta-feira, 13 de março de 2009

futebol e amor


Cada dia de escanteio, cada impedimento.
Toda bola fora.
Cada bolada na cara.
Toda derrota amarga.
Tudo que vivi valeu a pena para levar meu filho na primeira aula de futebol.
Instintivamente ele entendeu  a coragem de um chute.  
E me deixou toda orgulhosa na arquibancada.






domingo, 8 de março de 2009

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

sobre a arte de ser gladiador e saber tirar proveito disso, e não estou falando da horrenda sandália homônima



Li isso num blog:
"Há confrontos que nada trazem de poderoso, a não ser uma provação que passadas as primeiras curiosidades será logo ridícula."
E fiquei pensando, seja lá o que aconteça na vida das pessoas, a tal provação deveria ao menos deixá-las mais bonitas. No mínimo mais magras. Mais inteligentes seria pedir demais? Menos fútil já estaria de bom tamanho...
Sei lá, tem gente que se contenta com tão pouco que me dá aflição.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

domingo, 15 de fevereiro de 2009

dance me to the end of love ou que dilema de hamlet que nada


A mão que amassa o pão. que mata. que muito.
É tudo fluxo.
queria mesmo era esse luxo.
marido e filho brincando de massinha na cozinha.
Se quiser eu desembucho.
queria mesmo era voar até o Índico.
ir pra Bali e seguir o velho bruxo.
comer o pão que o diabo amassou.
marido e filho dependurado nos utensílios de cozinha.
Queria mesmo ser quem eu sou. 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Um dia da caça... o outro da pesca.
Tô cansada de acreditar. de vagar pelo mundo como um lugar simpático.
Hoje eu queria te encontrar. Sentar e sentir ânsia.
Poder reclamar como se isso fosse poesia útil.
Hoje eu queria ter aquele olhar de lobo que devora tudo.
Mas junto com a calma veio também um cansaço.
Até mesmo para ir ao teu encontro.
E então você chegou.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

H.H

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas buscando aquele outro decantado surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo toma-me o corpo.
E que descanso me dá depois das lidas.
Sonhei penhascos quando havia o jardim aqui ao lado. 
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo ao invés de ganir diante do nada.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008



Diante do medo um sorriso aeróbico
Nas bochechas a caimbra de uma alegria incompleta
nada como um sorriso burro e paranóico
Para não perceber a velocidade terrível da queda.










quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Sobre árvores e esquecimentos


e então me dei conta que morava em Alberobello e era uma artesã. 
Confesso que foi bom perceber que sempre estive aqui, no alto da colina, longe do mar, o que me faz falta, é verdade,mas não há secura.
Por aqui tudo brota, até uma imensa figueira que me acolhe com seu perfume místico quando não sei quem sou.
Há também um velho carvalho. Ele foi muito podado pelo lenhador, agora posso ver. Suas raízes fortes não deixam seus galhos balançarem ao vento, sem direção. O carvalho ri envergonhado dos figos frondosos que caem aos seus pés. Ele não pode alcançá-los, nem devorar sua carne roxa e suculenta.

A cidade é cinza para quem não sabe olhar, e eu tenho como missão guardar as cores escondidas nas frestas das ruelas.
Passo longos dias contemplando o fluxo com a alma livre e o corpo cansado. Escolhi ser barro trabalhado pela vida, e não me assusto se esse caminho não tiver paradeiro. Ser sozinha, ser selvagem e desobediente civil. Rasguei meu título de eleitor e nem raiva consigo sentir de Berlusconi. Ele nasceu em 29 de setembro de 1936. E por que ele também não poderia ser eu?
Sou quântica e holográfica, com relevo e profundidade. Integral e inteira. Não nego, sou negada.
Falo um dialeto das árvores que aprendi com os assírios, de uma época muito muito distante, de quando vivi na Mesopotâmia. Sim, também isso já aconteceu. De qualquer forma sempre fui camponesa, o que me enche de dignidade,porque sei o meu lugar no mundo.



Eu me reconheço, mas não lembro de nada disso. Deve ter sido longe daqui, ou mais tarde.

domingo, 23 de novembro de 2008

A Darth é assustadora de perto ou para uma amiga que nunca ousei gostar tanto e que faz tanta falta


        

            Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo.
            Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e a desobediência representa respeito.
            Há um olhar que reconhece os curtos caminhos longos e os longos caminhos curtos.
            Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grandes lealdade.
            Este olhar é o da alma.



quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Este lugar é uma maravilha mas como é que faz pra sair da ilha?


Acordei fazendo cinema. Passos largos rumo a longa vida. Sim, acordei corajosa. 
Acordei catando os desejos espalhados pelo chão, escolhendo os que queria para o dia. Há que se respeitar meu momento hedonista.
Muita loucura acontecendo. A tal da Esperanza. Freedom. Fazer canto e oh yeah fazer jazz. Sim, a prática do shuffle também. 
Há todo um futuro vinil pela frente. Uma nova onda pra surfar, novas bossas.
Acordei então cena a cena. E nada é despercebido nessa ilha de edição. Recrio paixão em meus personagens. Coloco trilha sonora invisível. E eles dançam até mais tarde.
Acordei de grandes olhos abertos para o oceano pacífico.  

 

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Mas a sala rodopia e a pele treme, sim, há. 
Existe a física quântica, existe sim.
Nossas bocas se encontraram na lata de cerveja, sim.
E sou muitas, sou uma, sou aquela.
E há que se respeitar.
E quero ver dormir com um barulho desses.
É movimento, ritmo, há pulsação sim.
E não estou falando de você, nem de mim, nem de ninguém.
E não venha me decifrar pois vou te devorar.
Com a língua, com o gesto, com o acaso. 
Com o que permeia, impesteia, promete.
Há o trago de afago, tela de proteção golpe de realidade.
Nessa noite há arte e amor até mais tarde.
Ele veio me falar de desejo e prazer, e entrego o corpo à câmera. Ele fala de lado A e lado B.
Aflora. E fala de shuffle, e é fantástico. É realmente incrível que com mil possibilidades, o shuffle surpreenda por não se saber o que será visitado.
E me entrego, sim.
A dor e a delícia. 
À dor e à delícia.
Há dor e há delícia. 

terça-feira, 14 de outubro de 2008

de quando te (re)conheci ou porque Caótica Ana é mais do que simplesmente um filme para mim







Ontem quando te abracei na rua eu vi que o pedestre do pé no asfalto parou. Amar é algo assim como a eternidade.
Eu vivo plena, entre poemas e cebolas, mesmo que me veja assim chorando. Eu sei que você não vai entender pois ama seco quase sem suor, sem lágrima, sem sal algum. 
Eu te disse também ontem que agora eu era uma mulher sem dentes, e é verdade, eu acreditava na força da dentadura mas hoje sei que sobrevivo de sopa.
Eu não sei qual palavra usar pra dizer que sinto tua falta. 
Eu não sei como dizer que sou fênix sem dono e que ontem quando te abracei naquela esquina, na verdade eu já tinha ido. 
Aquele tempo não passa nunca. E o pedestre permanece ali, in-visível aos olhos.
 

 

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Dievas



hoje vi a face oculta de deus e nela eu era o universo de puro caos e amor.
era Ana, era Sibel, era Zingarina.
era a camponesa de saia rodada que se arrasta na grama. 
era a mãe sentada na beira da nascente vendo a prole brincar.
era mãos de lenha assando pães quentes de afeto e sal.
era fêmea ferida no orgulho dos ciclos e ovários. 
era a costela de Adão.
era a macaca da Etiópia perdida na Macedônia sem floresta.
era a menina comendo ovo cozido na praia de Santos. 
era mito sem rito algum. 
era dor e ardor na pele vulcânica. 
era emaranhado de erros e gestos afobados. 
era harmonia e acordes nos sons do sim. 
era pura aceitação de rebeldia.
era forte e feiticeira. 
era a morte.
era renascimento.



quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Tô mais pra Tom Zé do que pra São Jorge




          Caetano Veloso tá ficando um velhinho bonachão. Nem dá pra levá-lo à sério cantando com Roberto Carlos...





terça-feira, 16 de setembro de 2008


Saí atrás de mim  sem saber quando volto.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Miles em mim




                               

 Com meu trompete em punho sigo a revolução permanente.




quarta-feira, 16 de julho de 2008

Ana Cañas e a Terceira História

        

      Um feixe de luz se abre do céu quando Ana Cañas entra no palco. O tempo pára e começa uma jornada de onde não se pode sair ileso.
      O primeiro acorde e um arrepio na espinha. Ela nasceu para se ser ao vivo, e sabe disso. 
      Os olhos marcantes voam longe e sua alma encara a humanidade com garra de bicho feroz. 
      É sua voz que impressiona sim, com potência e domínio. Mas ela toda vibra em puro improviso de quem se lança na vida sem rede de proteção. 
      Há nela uma espécie de líder de geração, de profetisa dos novos tempos.
      É tomada por força estranha que poderia se pensar que está incorporada por misteriosa entidade da música. Nessa dimensão paralela seres dançam na penumbra de um cabaré antigo, brindam com sorrisos de reconhecimento dos que sabem pelo que a vida vale a pena ser vivida. 
     Há nela uma atmosfera de becos soturnos, madrugadas embriagadas, do olhar da primeira mulher que passou batom, da sedução dos balcões.
     Através dela todas as dores e amores do mundo são expurgados num equilíbrio constante.
      Aliou-se à uma legião estrangeira de pessoas que carregam imensos instrumentos e são capazes de com eles preencherem todos os vazios.
      Sua língua é a da loucura que é a única capaz de expressar o que não se pode entender.


terça-feira, 15 de julho de 2008

Sobre a arte de ver beleza em todas as coisas ou quando um homem lava sua roupa






                        Ou simplesmente
         como somos parceiros no jeito de 
                       olhar.                                   

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Pedrinhas de Aruanda







    E no meio de isso tudo eu paro pra cuidar da minha horta. Enquanto meu filho brinca na tarde ensolarada de inverno. Empilha pedrinhas e me imita, podando as folhas secas.
    Maria Bethânia canta seu Santo Amaro no dvd já gasto de tanto rodar e caso este post tenha um tema, e caso algum dia precise eu de algum tema pra viver, sempre volto e voltarei à ela: Maria Bethânia.
    Aos 15 anos percebi que existia um jeito simples e bom de se ser, e foi ela quem me apresentou.
    As cadeiras na calçada, as roseiras na varanda, as toalhas secando ao sol e uma suave brisa do mar nos cabelos.
    Me ensinou um jeito lindo de se olhar para o próprio país. De se respeitar sua cultura, pois quando ela canta o sertão que há em mim se abre e não há um só camponês que não seja eu. Sou todos, sou diversos. Sou negro, velho e iletrado. Sou terrivelmente feliz.
    Sinto cada fibra do músculo do meu coração se tonificar e ficar forte para a vida, pois para a música de pouco ou nada servem os ouvidos, música é assunto para a alma, e portanto, para os corajosos.
     Todos os poetas, todos os profetas a carregam como numa procissão quando ela canta. Tudo se ilumina, de tudo brota.
     Ela carrega o uivo do primeiro índio acuado nos trópicos, carrega o brado dos portugueses ambiciosos, carrega o canto do passaredo alheio, carrega os lamentos dos escravos, as risadas dos senhores, a festa na aldeia.
     Uma verdadeira cerimônia litúrgica se inicia quando ela chega. Yansã banha seus pés junto da Virgem Maria, e todos os santos dançam ao seu redor. É mais que uma voz, é mais que dona do dom, é rainha soberana, a verdadeira senhora das tempestades. Sem ela tudo seca, tudo é inútil e vulgar.
     Não é para todos, não é para todas as horas. É preciso saber usá-la. Guardar no fundo do peito para quando se precisa. É para olhos cansados mas jamais tristes. É para a vida com tanta intensidade que deve-se parar de viver por instantes para conseguir suportar. É para quem cultiva um pequeno broto de manjericão.


domingo, 29 de junho de 2008

Sienta la Cabeza




     Era um passeio despretensioso de domingo quando demos de cara com seres absolutamente vivos e pulsantes e coloridos e dançantes fazendo esculturas nos cabelos dos passantes. Trabalhavam concentrados alheios à velocidade dos dias atuais, embalados por um dj, criando as mais variadas formas e cores nas cabeças daqueles que se dispunham a experimentar um novo jeito de pentear, de olhar e de pensar. Delicioso de participar mesmo de longe, com um rabo de cavalo.
     Depois vim a saber que tratava-se de uma companhia espanhola chamada Sienta La Cabeza, fundada por uma brasileira que na verdade era cabeleireira. Prova  que vida e arte não se distinguem. Junto de uma espanhola e de um inglês, rodam o mundo fazendo a cabeça das pessoas. 
     Pena que não há por enquanto previsão de mais apresentações no Brasil. Mas deixaram inspiração de sobra por aqui...

www.sientalacabeza.com